Terapia de Vidas Passadas
 

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O Zen-Budismo


No instante de um pensamento,
Minha mente turbulenta chegou a um descanso.
O interior e o exterior,
Os sentidos e seus objetos,
São completamente lúcidos.
Em uma volta completa,
Esmaguei a grande vacuidade.
As dez mil manifestações
Surgem e desaparecem
Sem qualquer razão.
(Han-shan)

 


Conta a tradição budista que Siddharta Gautama, conhecido como "Buda" que significa "o desperto" ou "aquele que despertou", saiu de casa com dezenove anos de idade e começou a peregrinar até encontrar um grupo de ascetas. Siddharta resolveu juntar-se a eles, e permaneceu algum tempo mergulhado em práticas ascéticas. Certo dia, estava ele com seu corpo magérrimo e desnutrido e viu um barco passando num rio próximo. O barqueiro proferiu algumas palavras que Siddharta prontamente compreendeu. O barqueiro disse:
"Se você apertar muito a corda do violão, ela arrebentará. E se você afrouxa-la demais, ela não tocará."
Siddharta identificou-se seu atual estado de práticas ascéticas com essa frase, que lhe soou como sendo um grande ensinamento. Se nos inclinarmos a um dos extremos, estaremos equivocados, mas se nos direcionarmos ao outro extremo, estaremos tão equivocados quanto no outro extremo. Foi então que Siddharta compreendeu perfeitamente uma lei universal que estaria em tudo. Ele abandonou as práticas ascéticas e passou a ensinar o que ficou conhecido como "caminho do meio", ou seja, a consciência de que não devemos encaminhar nossa existência aos pares de opostos, mas sim buscar sempre um meio-termo entre as diversas situações de nossa vida.
Depois disto, Siddharta sentou-se sob uma árvore que ficou posteriormente conhecida como arvore Bodhi". Conta a tradição que "em seu décimo terceiro ano, no oitavo dia do décimo segundo mês, ele foi subitamente iluminado quando a estrela d'alva apareceu. Então ele falou as seguintes palavras, seu primeiro rugido de leão:
Eu e todos os seres sobre a terra, juntos, atingimos a iluminação ao mesmo tempo.
A partir deste dia o Zen começou a ser transmitido...
O termo japonês Zen (em chinês Ch'an) é a forma abreviada de Zenna, derivado do chinês Ch'an-na, que por sua vez vem de Dhyana — meditação em sânscrito. Em coreano, é chamado de Son; em vietnamita, chama-se Thien.1. Dentre todos os sistemas filosóficos e espirituais, o Zen é sem dúvida um dos mais originais e inovadores. Não podemos nem mesmo afirmar que o Zen é um sistema filosófico, ou uma teoria, ou uma doutrina. O Zen é apenas um modo de vida, uma visão do mundo, uma atitude espiritual que é viva e presente. Ele é recomendado para as pessoas que já estão cansadas de sistemas e teorias meramente formais. O Zen dispensa todas as formas de instrução doutrinária, de um conhecimento sistemático e principalmente das formas de ortodoxia muito presentes nas religiões.
Tem-se afirmado que a diferença entre o Zen e as outras religiões é que "todas as outras sendas vão fazendo curvas, galgando lentamente a montanha, mas o Zen, como via romana, põe de lado todos os obstáculos e se move em linha reta na direção do objetivo." Para o Zen, todas as doutrinas, as formulações teóricas, os credos, dogmas e filosofias são simplesmente noções sobre a realidade, ou idéias que visam descrever e representar acerca da natureza de alguma coisa, assim a palavra céu busca apenas representar o céu.
O Zen não admite quaisquer tentativas interpôr sistemas, símbolos, signos e doutrinas entre o discípulo e a realidade, entre o conhecedor e o conhecido. Nas palavras de Alan Watts, "o Zen é sentir a vida, em vez de sentir algo sobre a vida". Ao invés de buscar significados múltiplos que visem explicar como se deve entrar em contato com a vida, o Zen afirma que esses símbolos são entraves no contato direto que devemos manter com a fonte dos próprios símbolos. Como disse um antigo Mestre Zen: "Preste atenção na própria lua e não no dedo que aponta para ela".
O mestre Zen Ch'an Chih-wei (?-680) recitou o seguinte poema a seis discípulos:
Não se aferre aos pensamentos
Pois pensamentos são como o rio da vida e da morte
E fluem apenas rumo aos vastos mares dos seis reinos.
A única forma de se libertar dessa corrente
É não se apegar às próprias opiniões.
Seu discípulo Hui-chung respondeu, também em versos:
Todos os pensamentos brotam da ilusão,
Sua natureza é a única coisa que não tem começo nem fim.
Quando se compreende isso,
A corrente de pensamentos cessa por si só.
O método que o Zen usa, se é que podemos chamar isso de método, é o de colocar o intelecto numa posição em que ele sozinho não pode se sustentar. Nossa atividade mental deve estar sempre percorrendo caminhos para conseguir se situar. O Zen coloca o razão de cabeça para baixo e procura deixar clara sua insuficiência. Essa metodologia visa confundir, desconcertar, exaurir o intelecto, e quando menos se espera, o intelecto supera a si mesmo e passa a ver as coisas de modo diferente.
O buddhismo Zen é baseado na idéia de que, já que todos os seres sencientes têm uma natureza búddhica, para atingir a iluminação é apenas necessário descobrir este buddha interior. Já que você já é um buddha, você está iluminado no momento em que entender sua verdadeira natureza. Digo que o Zen é mal entendido porque as pessoas muitas vezes acreditam que este "descobrimento" da natureza búddhica interior pode ser atingido sem trabalho. Este não é o caso. A prática Zen real é muito disciplinada e muitos anos de estudo devem necessariamente preceder a liberação "súbita" na verdade.
(Hsing Yün, Only a Great Rain)

Dizem que o Zen surgiu com o próprio Buda. Certo dia Buda estava diante de uma assembléia de oito mil na Montanha Espiritual [Ghridakuta, o Pico dos Abutres]. De repente, sem qualquer explicação, Buda levantou uma flor de lótus diante de todos. Ninguém compreendeu esse gesto simples de Buda e todos permaneceram em silêncio. Havia um monge que se chamava Maha Kashyapa, que viu o gesto de mestre e lhe retribuiu com um sorriso. Então Buda disse:
Tenho o tesouro do olho do Dharma, a mente inefável do nirvana. Estes eu transmito a Mahakashyapa.

Desde esse dia, essa mensagem sutil, que apenas Maha Kashyapa compreendeu, foi sendo transmitida de pessoa a pessoa, de espírito a espírito, numa sucessão ininterrupta até os dias atuais.
Alan Watts foi um dos poucos ocidentais que conseguiu compreender a sutileza da mensagem do Zen e acabou sendo um dos maiores divulgadores do Zen-Budismo. No seu Livro "O Espírito do Zen", ele escreve o seguinte:
"Assim como é impossível explicar a beleza de um pôr-do-sol a um homem ego de nascença, é impossível aos sábios encontrar palavras que transmitam sua sabedoria aos homens de menor compreensão. Pois a sabedoria dos sábios não está em seus ensinamentos: se assim fosse, qualquer um poderia se tornar um sábio simplesmente pela leitura do Bhagavad Gitá, dos Diálogos de Platão ou das escrituras budistas. Sendo assim, alguém poderá estudar eses livros durante toda a vida sem ficar mais sábio, pois buscar a iluminação em palavras e idéias é como esperar 'que a visão de um cardápio possa atingir e satisfazer o organismo de um homem esfomeado'. Entretanto, nada é mais fácil do que confundir a sabedoria do sábio com sua doutrina, pois na ausência de qualquer compreensão da verdade a descrição dessa compreensão feita por outrem é facilmente confundida com a própria verdade. Todavia, essa verdade não é real, assim como a placa que indica uma cidade não é a cidade."
Em um diálogo antigo, o mestre ensina para seu discípulo por que não devemos acreditar apenas nas palavras, pois elas são ilusórias. O Mestre ensina ao discípulo o valor que deve ser dado às palavras:
Um monge aproximou-se de seu mestre — que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da Lua — com uma grande dúvida:
"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"
O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."
O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"
"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."
"Então," o monge perguntou, "por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"
"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.
Após o Zen ter sido transmitido de Buda à Mahakashyapa, ele percorreu seis séculos numa transmissão direta de mestre à discípulo até chegar a um monge conhecido como Bodhidharma. Bodhidharmma foi uma figura muito misteriosa de sua época. Até hoje não se sabe ao certo se historicamente ele existiu, mas é certo que existem textos tradicionais budistas que falam sobre ele, e apesar de ser uma pessoa muito simples, ele influenciou decisivamente o budismo proporcionando-lhe uma transformação. Antes de ir a China, a tradição conta como Bodhidharma teria transmitido o intransmissível ao mestre Prajnatara. No texto Môndos e Koans( www.dharmanet.com.br) podemos ver um pouco da história da transmissão do Zen:

O ex-príncipe Bodhidharma conheceu Prajnatara como um mestre de Vajramushti, a arte marcial da antiga Índia. Depois, ele descobriu que Prajnatara também era um mestre do Dharma de Buddha, pelo qual se interessou ainda mais.
Prajnatara: O que é completamente sem características e, portanto, completamente incaracterizável?
Bodhidharma: É aquilo que nunca, quando se manifesta livremente, nunca surge no lugar original.
Prajnatara: O que é o mais excelente, exalto e sublime?
Bodhidharma: É a clareza e brilho inatos da própria consciência.
Prajnatara: O que é realmente ilimitado e, portanto, sem nenhuma divisão ou ligação?
Bodhidharma: É a própria natureza da realidade, da maneira que ela é, momento a momento.
Depois dessa transmissão, Prajnatara pediu a Bodhidharma para que levasse a luz do Dharma até a China. Depois de uma longa viagem de barco, ele chegou lá e se encontrou com o imperador Wu, do reino de Liao.
Wu: Eu construí templos e monastérios para os monges, dei dinheiro para os pobres. Quantos méritos eu consegui?
Bodhidharma: Mérito nenhum.
Wu: Então, o que é o ensinamento sagrado do Buddha?
Bodhidharma: É vazio e nada tem de sagrado.
Wu: Mas afinal, quem é você?
Bodhidharma: Não sei.
Depois disso, Bodhidharma se retirou para o norte e se instalou no monastério Shao-lin, onde se iniciaria a luminosa linhagem chinesa do Zen.
 

"Quando curiosamente te perguntarem, buscando saber o que é Aquilo,
Não deves afirmar ou negar nada.
Pois o que quer que seja afirmado não é verdade,
E o que quer que seja negado não é verdadeiro.
Como alguém poderá dizer com certeza o que Aquilo possa ser
Enquanto por si mesmo não tiver compreendido plenamente o que É?
E, após tê-lo compreendido, que palavra deve ser enviada de uma Região
Onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde possa seguir?
Portanto, aos seus questionamentos oferece-lhes apenas o silêncio,
Silêncio – e um dedo apontando o Caminho."

"Todos os seres são Budas desde o início;
É como o gelo e a água;
Sem água, não existe gelo.
Seres sensíveis exteriores, onde buscamos o Buda?
Não sabendo quão perto está a Verdade,
As pessoas a buscam em lugares distantes...
Elas são como aquele que no meio da água,
Sedento, grita, implorando por ela."
Todos os buddhas e todos os seres comuns nada mais são do que a mente única. A mente é sem início e sem fim, não-nascida e indestrutível. Não tem cor nem forma, não existe nem não-existe, não é velha nem nova, longa ou curta, grande ou pequena, já que transcende todas as medidas, limites, nomes e comparações. É o que vocês vêm diante de vocês.
Comecem a pensar sobre isso e imediatamente estarão errados. É como um vazio ilimitado, que não pode ser sondado ou medido. A mente única é o Buddha, e não há distinção entre o Buddha e os seres comuns, exceto pelo fato de que os seres comuns estão apegados às formas, e assim procuram pela natureza búddhica como se ela estivesse fora deles mesmos. Por causa desta procura, eles perdem a natureza búddhica, já que estão usando o Buddha para procurar o Buddha, usando a mente para procurar a mente. Mesmo que continuem por um milhão de éons, nunca serão capazes de encontrá-la. Não sabem que o que todos eles têm de fazer é colocar um fim ao pensamento conceitual, e então o Buddha aparecerá diante deles, pois esta mente é o Buddha e o Buddha são todos os seres sencientes. Não é menos para os seres manifestos nas coisas comuns, nem mais para os seres manifestos nos Buddhas.

A mente do grande sábio da Índia estava intimamente ligada de leste a oeste.
Entre seres humanos, há sábios e tolos, mas no caminho não há patriarcas do sul ou do norte.
A fonte sutil é clara e brilhante; os rios ramificados fluem através da escuridão.
Estar apegado às coisas é ilusão; encontrar o absoluto ainda não é a iluminação.
Um e todos, o sujeito e o objeto estão relacionados e, ao mesmo tempo, são independentes.
Estão relacionados, mas funcionam diferentemente, apesar de cada um manter o seu próprio lugar.
A forma faz com que o caráter e a aparência sejam diferentes; os sons distinguem o conforto e o desconforto.
A escuridão faz todas as palavras serem uma; o brilho distingue frases boas e más.
Os quatro elementos retornam à sua natureza assim como uma criança retorna à sua mãe.
O fogo é quente, o vento é movimento, a água é úmida, a terra é dura; os olhos vêem, os ouvidos escutam, o nariz cheira, a língua sente o salgado e o azedo.
Cada um é independente do outro.
A causa-e-efeito deve retornar à grande realidade.
As palavras "alto" e "baixo" são usadas relativamente.
Dentro da luz, há escuridão, mas não tente entender essa escuridão.
Dentro da escuridão, há luz, mas não procure por essa luz.
A luz e a escuridão são um par, como um pé na frente e um pé atrás ao andar.
Cada coisa tem o seu próprio valor intrínseco e está relacionada com tudo o mais na função e na posição.
A vida comum encaixa-se no absoluto como uma caixa à sua tampa.
O absoluto funciona junto com o relativo, como duas flechas se encontrando no meio do ar.
Lendo as palavras, você deve compreender a grande realidade.
Não julgue por quaisquer padrões.
Se você não vê o caminho, você não o vê nem mesmo ao andar sobre nele.
Quando você anda pelo caminho, ele não está perto, não está longe.
Se estiver deludido, você estará a rios e montanhas de distância dele.
Respeitosamente digo àqueles que querem ser iluminados:
Não percam seu tempo, nem de dia, nem de noite.
"O real está próximo, você não precisa procura-lo; e o homem que procura a verdade nunca a encontrará. A verdade está no que é – e essa é a sua beleza. Mas no momento em que a concebe, no momento em que a procura, você principia a lutar; e o homem que luta não pode compreender. Eis aí porque temos de permanecer imóveis, observadores, passivamente percebedores."
(Krisnamurti)
No Zen não há estados de consciência, pois tudo o que precisamos já está em nós. Todos os agregados do Budismo são ilusões e só existe a eterna presença.
Depois disso ele passou quarenta e nove anos ajudando os outros ensinando, nunca permanecendo em reclusão. Com apenas um manto e uma tigela, não sentia falta de nada. Ensinou para mais de trezentas e sessentas assembléias e então finalmente transmitiu o tesouro do olho do Dharma a Mahakashyapa, e sua transmissão continuou até o presente. De fato, esta é a raiz da transmissão e prática do verdadeiro ensinamento [do Zen] na Índia, China e Japão.

 

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